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Me deixe velar os meus mortos

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Não vou dizer que tenho me lembrado de você, já que as recordações a seu respeito são o que me mantém viva. Não vou dizer que essa época mexe na ferida, porque, na verdade, ela nunca foi cicatrizada. Ainda dói, constantemente, não apenas em datas festivas. Dói porque talvez eu ainda não tenha aprendido a lidar com a ausência física, ou porque você sempre vai ser uma parte de mim (e vice-versa).

Dói porque é inevitável te imaginar presente. Dói porque em alguns momentos eu sinto como se você ainda estivesse aqui – mas não está. Dói porque quando eu fecho os olhos eu ainda posso ver teu sorriso iluminando minha mente. Dói porque eu gostaria de te abraçar e contar as novidades. Dói porque eu gostaria que você voltasse dessa viagem, na qual embarcou sozinha, me deixando aqui, sem a tua companhia. Dói porque sou humana, prisioneira da matéria e de seus valores corrompidos. 

Como superar o que é insuperável? Como preencher um vazio causado por alguém que é insubstituível? Como conter um sentimento incontrolável que me devora por dentro – quase como um castigo, por nadar e sempre morrer na praia. Ainda dói, mesmo que eu tenha seguido minha vida. A ferida continua aqui, aberta e inflamada. Sempre existirão momentos em que eu irei desabar e assumir minha pequenez de espírito, meu egoísmo em te querer perto de mim. Momentos em que o choro ficará entalado na minha garganta e as lágrimas insistirão em descer. Momentos em que eu vou olhar para todos os cantos de uma sala lotada tentando encontrar o teu rosto na multidão. Momentos em que eu vou me esquecer que você não está aqui e vou chegar em casa te procurando – ainda acontece com frequência, por mais que eu evite olhar para o nosso passado; esse é o lado ruim de ter uma boa memória: ela te atormenta. 

E eu sempre vou chorar, porque não existe mágica nem remédio que me ajude a entender o que eu não entendo. Eu preciso disso. Preciso me expressar. Porque você não foi sozinha – levou contigo uma parte de mim, minha meninice e alguns sonhos. Então, por favor, a única coisa que eu te peço é que me deixe chorar pelos meus fantasmas, sem culpa ou julgamentos. Me deixe velar os meus mortos. 

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