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Resenha – Calibã e a Bruxa

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Imagem retirada de: naomekahlo.com

Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici é um livro baseado em uma pesquisa acadêmica originada pelos debates que acompanharam o movimento feminista nos Estados Unidos acerca do motivo da origem da “opressão” das mulheres e das melhores estratégias políticas que o movimento deveria adotar em sua luta pela reivindicação de direitos. Em sua tese, a autora faz críticas às abordagens de Marx e Foucault por não considerarem a perspectiva feminina em seus objetos de estudo. A partir dessa discussão, ela atende ao objetivo do livro, que é responder à questão “qual o papel das mulheres na transição do feudalismo para o capitalismo?”

Marx analisa a acumulação primitiva, ou seja, o processo político no qual se sustentam as relações capitalistas, a partir do ponto de vista do proletariado assalariado do sexo masculino, ignorando uma série de fenômenos, como a divisão sexual do trabalho; a construção de uma nova ordem patriarcal baseada na exclusão das mulheres do ambiente de trabalho e subordinação aos homens; e a mecanização do proletariado e, no caso das mulheres, a transformação do corpo em uma fábrica de produção de novos trabalhadores.

O movimento da caça às bruxas na Europa tratou-se de um combate à resistência que as mulheres apresentaram contra a difusão das relações capitalistas. Não foi apenas um controle sobre o corpo feminino, mas também um controle do imaginário social. Era necessário domar o corpo rebelde, selvagem, com a finalidade de torná-lo uniforme e previsível. O mundo precisava ser “desencantado” para ser controlado.

Biologicamente falando, nosso corpo é constituído de séculos de aprimoramento, e essa herança biológica se manifesta através dos nossos instintos, gostos e histórias. Partindo desse pressuposto, a queima dos corpos femininos representa a queima dessas histórias.

A criação do conceito de feminilidade está diretamente ligada às condições sociais e históricas nas quais o corpo se tornou o elemento central. No capitalismo, o corpo é para as mulheres o que a fábrica é para os homens, um local de exploração e resistência.

O corpo feminino foi apropriado pelo Estado e forçado a funcionar como uma máquina de reprodução e acumulação de trabalho. Dentro dessa lógica, é possível explicar a importância dada ao corpo em todos os sentidos – maternidade, parto e sexualidade. Também é possível explicar o controle da Igreja sobre o corpo, não somente em relação às mulheres no que diz respeito ao aborto,  mas também em relação aos homens na questão da homossexualidade, pois representam duas “ameaças” à produção de novos trabalhadores.

 

O corpo feminino como objeto

A série The Handmaid’s Tale (o conto da aia, em português) baseada no livro homônimo de Margaret Atwood, inspirada em acontecimentos reais, como a Revolução do Irã e em regimes fundamentalistas, conta a história de um futuro distópico em que os Estados Unidos sofreram um golpe e se transformaram na República de Gilead. Com uma crise na taxa de natalidade, as mulheres férteis passam a ser usadas como objeto para a procriação, sendo estupradas por homens poderosos numa espécie de ritual sagrado e cedendo seus filhos às famílias afortunadas.

É impossível falar sobre a exploração do corpo feminino como meio de reprodução e acumulação de trabalho sem traçar um paralelo entre o universo distópico de O Conto da Aia e a naturalização do trabalho reprodutivo. A série é quase que um retrato da teoria de que o capitalismo está necessariamente ligado ao sexismo.

No século XX, a filósofa Simone de Beauvoir, uma das figuras mais importantes do movimento feminista, extremamente crucial para a segunda onda do feminismo, que se consolidou no início dos anos 60, alertou  “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida”.

 

Medo do feminismo

Algumas acadêmicas feministas defendem que já existe a quarta onda do feminismo, em que as meninas são frutos de uma geração de mulheres empoderadas que se tornaram referência e quebraram paradigmas. São apontadas frequentemente as pautas da cultura do estupro, dos assédios e da representação da mulher na mídia. As palavras-chave desta quarta onda do movimento seriam liberdade e igualdade.

Essa nova geração de mulheres confiantes e empoderadas representam uma ameaça ao patriarcado e geram incômodo nos debates sociais.

Em resposta ao movimento, existe uma onda conservadora ao redor do globo, rondando os espectros políticos e se fazendo cada vez mais presente. Dois exemplos recentes podem ser encontrados na ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos e de Jair Bolsonaro, no Brasil.

O fenômeno do Bolsonarismo no Brasil está diretamente ligado com o empoderamento feminino dentro das periferias e a crise política e econômica que aflige o país. O perfil do eleitor do Bolsonaro é o homem desempregado por conta da crise que aflige o país, que deixa de ser o provedor de sua casa, que é assaltado todos os dias e compra o discurso de que as coisas chegaram a esse ponto porque mulheres, negros e a comunidade LGBT retiraram seus direitos. Ele encontra na figura de Jair Bolsonaro uma segurança para o seu mundo que está desabando, uma última esperança.

A autonomia da mulher gera incômodo pois o capitalismo, como sistema econômico-social, precisa justificar e mistificar suas contradições. Quando a voz das mulheres ganha força juntamente com os debates acerca da liberdade dos corpos femininos, isso representa uma ameaça.

A sociedade capitalista não pretende libertar as mulheres das amarras de sua produção em larga escala de novos trabalhadores, muito pelo contrário, é necessário restabelecer a ordem e reiterar o papel da mulher, que segundo o capitalismo, é o de cumprir o seu destino biológico.

 

 

Referências Bibliográficas

FEDERICI, Silvia. (2017) Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva.

Tradução Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante.

ATWOOD, Margaret. O Conto da Aia. Tradução de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

O que são as ondas do feminismo?. Disponível em: <https://medium.com/qg-feminista/o-que-s%C3%A3o-as-ondas-do-feminismo-eeed092dae3a >,  Acesso em: 06 jun. 2019.

ANTICAST 385: Da esperança ao ódio. Entrevistador: Ivan Mizanzukri. Entrevistada: Rosana Pinheiro-Machado. 11 abr. 2019. Podcast. Disponível em: http://anticast.com.br/2019/04/anticast/anticast-385-da-esperanca-ao-odio/ . Acesso em: 09 jun. 2019.

Simone de Beauvoir e a Segunda Onda Feminista. Disponível em: <https://medium.com/@4grausdemiopia/simone-de-beauvoir-e-a-segunda-onda-feminista-ab215667a0dd >, Acesso em: 09 jun. 2019.

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